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A poda

30.setembro.2013

Eu soube da felicidade quando menina e assoprava as velas do meu bolo de aniversário. Meus olhos se enchiam ao ver o glacê colorido e os enfeites colocados pelas mãos delicadas de minha mãe.

Eu soube da felicidade, quando criança,  ao rodar a saia do meu vaporoso vestido rosa. Eu e era princesa de um castelo que se erguia e jamais pensava que um dia desmoronasse.

Eu soube da felicidade quando tinha uma boneca nas mãos e a colocava nos braços e a fazia dormir cantando: “boi, boi, boi, boi da cara preta; não pegue esta menina, ela não tem medo de careta”.

Eu soube da felicidade quando consegui ser a primeira da classe e recebi o tão esperado laço de fita verde e amarelo, preso, por um alfinete dourado, no bolso da blusa branca do uniforme.

Eu soube da felicidade quando acariciava a dormideira e a via se encolher  ao toque de minhas mãos tão sujas de brincar pelo quintal de terra batida.

Eu soube da felicidade quando segurava um grilo com a mão e  o libertava pelo verde da grama e logo encontrava uma joaninha e a deixava caminhar pelo meu braço, à toa, enquanto eu a achava …




As pessoas com maior memória operacional têm maior tendência a distraírem-se. Um estudo recente demonstrou que quem realiza mais raciocínios em simultâneo tem menor capacidade para absorver a informação durante as tarefas de rotina.

Quem consegue captar mais informação e trabalhá-la é, também, quem mais facilmente se distrai. Segundo um estudo científico publicado na revista Psychological Science, os investigadores Daniel Levinson e Richard Davidson (universidade de Wisconsin-Madison, EUA) e Jonathan Smallwood (instituto Max Planck, Suíça) estabeleceram a ligação entre a maior memória operacional e a tendência do cérebro em dispersar-se por diversos pensamentos.

“Os nossos resultados sugerem que o tipo de planificação que as pessoas fazem frequentemente na vida diária, como quando estão no autocarro, vão de bicicleta para o trabalho ou tomam duche, é, provavelmente, efetuado através da memória operacional”, afirmou Jonathan Smallwood, explicando que “os cérebros estão a tentar alocar recursos nos problemas mais prementes”.

Esta forma de definir prioridades leva a que a maior memória operacional atribua uma maior capacidade para a realização de diversos raciocínios em simultâneo, tendo como consequência a dispersão da concentração. “É quase como se a atenção estivesse tão absorvida por outros pensamentos que não sobrasse espaço para recordar o que pretendiam estar …




Modernos Fazendeiros

22.setembro.2013

Fiz parte de uma geração de brasileiros que vivenciou a chegada dos jogos eletrônicos. Para as crianças de hoje, penso, é praticamente impossível imaginar o mundo sem esse tipo de entretenimento, mas para quem foi criança na década de setenta, a realidade infantil mal incorporava a televisão, já que nem todas as casas possuíam uma.

Recordo-me de que na casa dos meus avós havia aparelhos de TV em preto e branco e, preso na frente de seus monitores de tubo, era colocada uma espécie de tela azul, para conferir alguma cor às imagens. Isso sem dizer que controle remoto era algo nem remotamente suposto e a cada vez que se pretendia mudar de canal era necessário levantar do sofá e ir até a televisão para apertar um de seus poucos botões.

Lembro-me também quando nossos novos vizinhos mostraram para toda criançada da redondeza, um videogame ATARI. Fiquei enlouquecida, simplesmente! Se eu pudesse nem sairia da casa deles. Chegávamos a fazer revezamento para jogar, e um lugar no jogo só vagava quando o jogador cometia algum erro fatal e “morria”. Nem dava tempo de esfriar o console e já tinha outra criança e até outro adulto pronto para assumir seu posto……




Um lugar

22.setembro.2013

Era uma vez eu e um lugar que encontrei.

Vacilante, não sabia onde pisava. Logo, percebi que era seguro e me embrenhei pelos encantos de uma paisagem onde minhas vistas piscavam brilhantes.

Certa de que me acolhia, contava casos, colhia flores, recitava versos, cantava canções… Quando voltava, era ainda melhor, pois trazia em mim, os versos, as canções e as histórias, do outro lado, vivas na memória.

Uma nova vida nasceu para mim.

Entre dormir e acordar, passaram-se os dias e os dias se fizeram meses…

A felicidade era tanta, mas tanta… Nossa, como fui feliz num curto espaço de tempo, num lugar que descobri assim, tão de repente.

Contava os minutos, ansiosa, em chegar até ele e me deleitar do barulho do vento  ao ondular o mato,  do frescor da brisa,  do orvalho pintado na folhagem desenhando as beiradas daquela tão longa quanto estreita distância.

O céu inteiro de vigília. A lua. Ah, a lua… Até quando pálida, prateava a noite.

E pra lá ia eu sem medo das sombras que riscavam o chão de terra batida. O lugar era realmente seguro, me aquecia dos medos, abraçava minhas lágrimas e entendia o mais fundo de mim.

Em nenhum momento …




Pro dia nascer feliz

22.setembro.2013

Há algum tempo, li num anúncio de revista a seguinte pergunta: “O que é mais importante: aquilo que você já fez ou o que ainda vai fazer?”. Pensei nas coisas feitas ao longo da vida, em tudo o que conseguimos construir, apesar das barreiras, das lutas e dos fracassos. Pensei em tudo o que já refletimos, escrevemos e publicamos; na sorte que tentamos um dia, nos sonhos, nas esperanças e nos nossos sentimentos.

Os dois conceitos têm cada um o seu peso próprio: o que já fizemos e o que ainda faremos. Ambos possuem um valor intrínseco. Talvez, o passado possa servir de lição e de experiência para futuras realizações. Nossos atos futuros, embora planejados, podem ser desconhecidos até para nós mesmos, pois, quase sempre, nossos caminhos não são os de Deus. E Ele costuma nos surpreender.

Num mundo envolvo em densas trevas, é difícil enxergar a réstia de luz que chega até nós pelos desvãos da perplexidade. A Palavra diz que devemos rir com os que riem e chorar com os que choram. Levo meu abraço solidário e mudo aos que sofrem pelas constantes catástrofes naturais, as inundações, incêndios, secas, tormentas, as mudanças climáticas que obrigam muitos a deixar …




Atenção xonados de hoje em dia, que buscam sua primeira oportunidade no mercado de trabalho. Algumas profissões são mais estressantes que as outras, geralmente por causa de cargas horárias exaustivas ou excesso de responsabilidades e cobranças. Mas há também aquelas que causam um efeito depressivo nos profissionais.

A revista Health Magazine listou as profissões que mais causam depressão. Confira:

Enfermeiro particular – Trabalhos que envolvem cuidados particulares, na casa do paciente (home care), geram depressão em quase 11% dos profissionais, segundo a revista americana. Um dia de trabalho típico nesta profissão pode incluir banho, alimentação e outros tipos de cuidados em pessoas que, muitas vezes, não conseguem expressar nenhum tipo de reação ou gratidão, devido a suas enfermidades, como é o caso de idosos.

Garçom/garçonete – Em segundo lugar do ranking, aparecem esses profissionais que trabalham diretamente com o atendimento aos clientes. Nesta área, 10% relataram um episódio de depressão no último ano. Entre as mulheres, este número sobe para 15%.

Assistentes sociais – Lidar com crianças vítimas de abuso ou famílias em dificuldades ou à beira de um colapso são motivos suficientes para uma crise depressiva, aponta a publicação. Sem falar nos processos longos e burocráticos que estes profissionais …




Professores queridos, bons mestres, marcam nossa existência para sempre. Quem não se recorda de um determinado professor ou professora? Há nomes famosos de alguns deles, aqui em Piracicaba. Amado ou detestado, o professor zela em ensinar o que sabe. E são os heróis do seu tempo.

Contudo, creio que poucos ensinaram Português como o fez o professor e doutor Benedicto Antonio Cotrim, que partiu para a eternidade na semana passada, evocando em meu peito o abençoado tempo escolar. “Seu” Cotrim (assim o chamávamos) despertou em meu coração o amor à nossa língua pátria.

Ter aulas de Português com o professor Cotrim significava um aprendizado para toda a vida. Ninguém poderia esquecer a aula espetacular da Voz Ativa e da Voz Passiva, com seus gestos no ar, explicando de onde saía o objeto direto e onde entrava o sujeito, cruzando-os em nossas retinas. Eu vi.

“Seu” Cotrim foi meu melhor professor de Português. O mais sábio, o mais culto, o mais inteligente, o mais preparado. Não havia pergunta que ele não respondesse, nem questão do vernáculo para a qual ele não tivesse uma justificativa encantadora.

Amado Colégio Assunção, amados anos 60. Amados professores, livros adorados! As irmãs de São José, de …




Na igreja

15.setembro.2013
Valéria Lopes

Entro na igreja

E me sento
Todos estão mudos
Meu coração, não
Transborda como pode
Libera as lágrimas
Que descem à toa
Sempre que me deparo comigo
Assim como o riso

E me encanto
Com a arquitetura
Minuciosos detalhes
A luz do vitral
Em reflexo do sol
Colore os bancos escuros
Na tarde fria e clara

Minhas mãos escondidas em luvas
Cruzam os dedos
Sustentam meu peso
E penso nas mãos
Nos calos das mãos que talharam as paredes
Das cenas sagradas, vestidas de beleza sublime
E vejo Jesus, à minha frente, no alto
De mãos e pés na cruz
Da visível dor

E me lembro de que Menino
Ficou no templo
E sumiu dos pais
Eu ficaria nessa igreja hoje
Durante muito tempo
Sentada no banco escuro
Sob os raios de sol na tarde fria
E silenciaria
Como Ele
O que já me silencio há tempos
Ficaria, sim

E choro agora, como chorei quando nem ainda amanhecia
Sentada no banco da igreja em obras
O suor desponta na testa
Pelos olhos, pela face
Mesmo nevando lá fora

Eu me emociono em igrejas
Com os acordes do sino, ao longe
Não precisa de homem no altar
Não precisa de palavra…




A compra

8.setembro.2013

Assim que entro na loja, a vendedora se aproxima solícita e sorridente:

- Bom-dia! Quer uma ajuda? – Diz com uma voz fina, quase infantil.

- Bom-dia! Estou olhando, obrigada!

- Fique à vontade. Qualquer coisa, meu nome é Jurema. A loja tá toda em promoção…

Agradeço e me encaminho até o mostruário de brincos.

- Tá procurando alguma coisa em especial? Temos peças lindíssimas… – retira uma caixa de dentro de uma gaveta. – Olhe que bonito este conjunto de strass! Tem garantia. – tira um dos brincos do conjunto e o aproxima da minha orelha direita.  – Veja pelo espelho como brilha, iluminou seu rosto! Combina com seu tom de pele e seu cabelo louro. Se preferir algo pro dia a dia, – abre de novo a gaveta – temos esta gargantilha que faz par com este brinco. Chiquerézimo!

- É, são lindos… – tento me aproximar dos brincos. Sinto a sombra da mulher me seguindo.

- É pra você? Dá uma olhadinha neste anel de zircone… Também tem garantia. Se preferir, temos pulseiras, tornozeleiras… Por que não experimenta?

Observo-a por um instante: uma mulher baixinha e magricela. Maquiada, sobrancelhas pigmentadas. Simpática, sorriso largo, voz irritante.

- Não são …




Idade

8.setembro.2013

Você me lembra

os anos sessenta

a juventude saindo pelos poros

a vida e seu futuro

 

Você me reporta

ao sonho do passado

à calça boca de sino

e um colar de couro

 

Você me inspira

a lua mais bela

a noite sem medos

e a canção infinita

 

John Lennon existia

o mundo trepidava

- Do you wanna dance?

 

E num baile

cuba-libre

éramos livres

para praticar a esperança

 

Você me tomou

em seus braços

e éramos feitos

da mesma matéria dos sonhos

 

Matéria frágil

- este lado virado para cima

- cuidado!

 

Soltei sua mão

e me perdi pelo salão

 

Eu queria

plantar uma árvore

escrever um livro

ter um filho

 

A árvore não vingou

meu livro encalhou por aí

- só as filhas brilham

 

Envelheci na cidade

- feliz aniversário para mim

que já não tenho idade

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Marisa Bueloni mora em Piracicaba (SP), é formada em Pedagogia e Orientação Educacional e membro da Academia Piracicabana de Letras. 





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