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Crônica Tecnológica

21.outubro.2013

A crônica pede passagem. Concedo-lhe. Ah, a seqüência dos dias, a solidez das coisas feitas e findas! Estas coisas, muito mais que lindas, ficarão, disse o poeta. 

Amar o perdido também deixa confundido o meu pobre coração. As coisas tangíveis, disse também o poeta, tornam-se insensíveis à palma da mão.

O livro do Eclesiastes, da Bíblia, vem em nosso socorro: “Tudo é vaidade e vento que passa”! Ó, a vaidade das mulheres bíblicas, Clarice Lispector já a notara, ornadas e belas.

E a vaidade do homem enredado na internet? Cheguei onde queria. O computador, os aipedes da vida e tudo o que nos conecta com o mundo todo, num piscar de olhos.

Houve um tempo em que abominei tudo isso e jurei, beijando os indicadores em cruz, que jamais sucumbiria ao frio apelo da moderna tecnologia.

Sempre achei que máquinas e eu somos de uma incompatibilidade mortal. Até para tirar dinheiro em caixa eletrônico eu me atrapalho toda e demoro tanto para digitar minha própria senha, que a operação é cancelada.

Maravilha era ter uma Olivetti Lettera 32 cor-de-rosa, a postos sobre a mesa, podendo prescindir de um cérebro eletrônico, julgando que um texto saído da máquina de escrever tinha …




A tal felicidade

10.outubro.2013

Eu soube da felicidade quando menina e assoprava as velas do meu bolo de aniversário. Meus olhos se enchiam ao ver o glacê colorido e os enfeites colocados pelas mãos delicadas de minha mãe.

Eu soube da felicidade, quando criança,  ao rodar a saia do meu vaporoso vestido rosa. Eu e era princesa de um castelo que se erguia e jamais pensava que um dia desmoronasse.

Eu soube da felicidade quando tinha uma boneca nas mãos e a colocava nos braços e a fazia dormir cantando: “boi, boi, boi, boi da cara preta; não pegue esta menina, ela não tem medo de careta”.

Eu soube da felicidade quando consegui ser a primeira da classe e recebi o tão esperado laço de fita verde e amarelo, preso, por um alfinete dourado, no bolso da blusa branca do uniforme.

Eu soube da felicidade quando acariciava a dormideira e a via se encolher  ao toque de minhas mãos tão sujas de brincar pelo quintal de terra batida.

Eu soube da felicidade quando segurava um grilo com a mão e  o libertava pelo verde da grama e logo encontrava uma joaninha e a deixava caminhar pelo meu braço, à toa, enquanto eu a achava …




Tempo de Sonhar

10.outubro.2013

Perguntaram-me se não pretendo comentar, neste espaço, as incompetências do atual governo e o “julgamento” dos réus do mensalão; a guerra na Síria e a política internacional; a espionagem do governo americano (que afronta à nossa soberania!); o “fantasma” da inflação e todo o resto que a maioria já conhece “de cor e salteado, de trás pra frente”, como diria meu amado pai.

Falando no meu pai, meu amor por ele levou-me a um gesto que o eternizou: há uma rua com seu nome no Campestre. Poucas pessoas amaram tanto o bairro quanto o “seu Chico Fillet”, como ele era carinhosamente conhecido por aquelas bandas. Recorri à ajuda de um nobre vereador de nossa cidade, para dar andamento no processo que culminou com a sua aprovação pela Câmara.

Lá está a placa, num dos postes da estrada, com o nome do meu pai. Quando passo naquele local, meu coração bate mais forte, pois imagino que, lá do céu, meu pai se comove até as lágrimas, como costumava se comover por qualquer coisa aqui na terra, tirando o lenço do bolso, enxugando o canto dos olhos. Desejei prestar-lhe esta singela homenagem e fazer brilhar o nome do meu pai numa simples …




Homenagem a Catulo da Paixão Cearense, que nasceu em 1863, considerado um dos maiores compositores da canção popular brasileira. Interpretação de Rolando Boldrin para “Flor do Maracujá”.

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Nada mais quero

2.outubro.2013

Nada mais quero além de sonhar. Não irei além da minha portaria e a soleira da minha porta será o limite da casa plena. Faço do meu canto a diária sinfonia da paz.

Cada móvel reluz a sua história e as fotos nas paredes falam comigo. Digo a todas elas: bom dia! O conjunto de vime na sala, os quadrinhos de arte naif na parede logo acima, abrem-se para acolher quem chega.

Meu abraço ali se estende, junto da cristaleira emoldurada pelas fotos dos casais de noivos. De um lado, meu sogro e minha sogra; do outro, meu pai e minha mãe. Naquela pose em branco e preto da Foto Lacorte.

Os noivos parecem tão felizes nos retratos. Quantos sonhos em seus corações! A parede é o sustentáculo desta felicidade que escapa das fotos, do vestido branco dela, do terno impecável dele, na beleza de um momento que se captou para sempre. Até que a morte os separe.

Ah, como amo as fotos e os porta-retratos. Eles nos contam sobre o que existiu um dia, mostram-nos os nossos amados que já partiram e saúdam os que estão chegando, no eterno ciclo da vida.

Minha casa é o agasalho perfeito para …





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