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Verão que te quero verão

25.novembro.2013

Por várias vezes eu escrevi que sou amante das estações temperadas. Sou especialmente apaixonada pelo outono e pela primavera. Contudo, no fim das contas, sempre gostei de acompanhar e de viver as mudanças das estações, o crescer do frio ao calor e o despedir do calor, de volta ao frio.

Esse ano, em especial, por outro lado, ficou tudo misturado. Não vi a primavera em toda sua glória e nem mesmo o outono em sua placidez. Meio que tudo foi cinza, nublado, mais para frio do que para quente, com alguns oásis de dias azuis perdidos no caminho. As flores, confusas, floriram tímidas, como quem só aparece para dar uma espiadela, só para ter certeza de que não errou de caminho ou de estação.

Creio que o efeito estufa começa a se mostrar de forma mais real, menos como uma ideia de catástrofe cinematográfica, que só existe no imaginário. Não se trata mais do que as futuras gerações irão viver, mas do que nós estamos vivendo. O clima ficou louco, mas porque a humanidade o provocou. Aliás, não aparentemente satisfeita, ainda lhe faz futricas, como se não acreditasse que a natureza pudesse reagir.

Há dois anos, nesse mesmo mês de …




Ângelus

25.novembro.2013

Há um momento profundamente misterioso no tempo, uma hora de transição, em que o dia encontra a noite. Ainda não é noite, mas já não é mais dia. O lusco-fusco das coisas que parecem diluir-se na paisagem transitória confere ao momento uma singularidade que não escapa à alma e ao corpo mortal.

Nesta troca de guarda entre sol e lua, uma revelação parece brotar das perplexidades, e é como se todos os grandes enigmas da vida se elucidassem aos nossos olhos e àquele olho interior que nos habita.

Estou sempre atenta e de vigia. Monto guarda para não perder o pio sofrido e arrepiante de alguma ave que encerra seu vôo e sua faina diária, para se aninhar nas árvores próximas.

Há também um apito distante, que ouvimos curiosos, encerrando algo como um trabalho digno, laborioso. Não sabemos do que se trata, mas concordamos inteiramente que tudo seja como é.

Às 6 horas do entardecer, hora da Ave-Maria, hora da Anunciação do Anjo, um ser alado vem e faz a sua saudação. De joelhos, que o Anjo se aproxima. Quem ouvir o ruflar de suas asas, não se enganou. Quem puder ver o brilho de sua presença, ganhou o mais …




A festa do nosso coração

18.novembro.2013

Não há pessoa que, por momentos, não se ponha a pensar no “antigamente”, embora esse tempo passado não esteja tão distante assim. É que as mudanças, hoje, ocorrem numa velocidade vertiginosa, deixando a todos com saudades precoces.

Sinto saudade da escola primária, de descer a rua Governador, com a lancheira de alças cruzadas no peito, rumo ao Grupo Escolar “Barão do Rio Branco”. Saudade da minha primeira professora, dona Júlia. Saudades das férias escolares.

Julho nos presenteava com um frio que nunca mais vi. Eram dias de pura magia, tempo livre para brincar e jogar dama, palito, ludo real e forca. E uma semana na casa da madrinha adorada, que morava na Capital.

Bela a liberdade que se tinha de ir e voltar da escola a pé, aos bandos, com colegas, primos e amiguinhos. Brincar na rua de noite, jogar queimada, pular corda, os pais sentados nas cadeiras em frente da nossa casa.

Era dente partido, joelho arranhado, jogava-se descalço na areia, rasgando a sola do pé. Ninguém morria disso.

O papel do pão, branquinho, não era jogado fora. Guardava-se, para estudar nele, fazer as contas da prova de Matemática. Para fazer mil vezes a tabuada e decorar quanto era …




Sonho e vida

17.novembro.2013

Ventava…

E o vento era um canto sussurrado de palavras que as conhecia bem.

As folhas, pintadas de orvalho, se recolheram umas nas outras

E se houvesse sol, ficaria na espreita, ao longe, no horizonte.

E os grilos entenderam e se calaram.

E a nuvem encobriu a lua e a lua encobriu as estrelas e todo o céu se fechou

E meu coração embalou meu choro

E meu choro inundou minha alma

E minha alma incitou meu corpo

Prendi a respiração e, ao levantar os olhos,  vi a lua pálida em vagarosa ascensão sobre as nuvens

 

E, por um momento, achei que sonhar ainda seria possível.

Tsc

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Valéria Lopes é pós-graduada em Docência Superior, graduada em Letras (Português/Literatura). Formada em Inglês. “Às vezes, ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.” (Fernando Pessoa)

 




Quando chora a saudade

10.novembro.2013

É Finados. Inevitável recordar daqueles que já não estão mais pelas bandas de cá. Todos os anos é a mesma coisa, mas todos os anos há novas perdas, novas saudades ou saudades que se acumulam. Se é fato que comemoramos anualmente datas festivas, também temos um dia anual dedicado à memória dos falecidos. É quase só isso, na verdade, que temos a fazer por eles.

Sempre digo que temos que fazer pelos outros tudo o que pudermos enquanto eles estiverem vivos e que o mero lamentar póstumo não tem o condão de nos isentar de todas as omissões e culpas que nos pertencem. Contudo, por outro lado, a vida moderna nem sempre permite todas as visitas, telefonemas e abraços que gostaríamos de tornar reais. Talvez tudo seja uma grande inversão de valores, de nos esquecermos do que realmente deveria importar, mas vamos sendo soterrados por tantas obrigações, por tanto a fazer, que, no fim das contas, vamos nos olvidando de viver.

Paro, eu, muitas vezes, não apenas no Dia de Finados, mas, sobretudo nele, para me lembrar de tanta gente e bicho que o tempo levou embora. São avós, bisavós, primos, tios, amigos, colegas de escola, vizinhos, amigos dos meus …




Alice

10.novembro.2013

Sorridente, ela se aproxima da minha mesa, me abraça e me beija.

- Oi.

- Oi, tudo bem? Como você tá bonita!

Vai se chegando mais perto de mim e me dá um abraço bem apertado.

- Quer sentar?

Ela se senta.

- Levei um tempão pra me arrumar…

- Caprichou. De meias arrastão… Tá um charme!

- Olha como é grande.

Levanta a blusa e me mostra até onde a meia chega.

- Garota, abaixe essa blusa!

Nós duas rimos.

É uma bela menina de cabelos negros e lisos. Franja. Olhos bem pretinhos que se fecham ao sorrir. Tem dificuldade na fala.

- Eu bem tenho uma calopsita.

- É? Como se chama?

- Banguela.

- Banguela?

- É porque não tem nenhum dente. Sabia que eu tinha um coelho?

- Não tem mais?

- Não, porque apertei o pescoço dele até ele morrer. – Diz com um olhar profundo e perturbador.

- Nossa. Você só pode tá brincando…

- Tô, não… Eu enforquei o coelho.

- Por que você fez isso? – Pergunto incrédula.

- Não sei… – Olha para cima, pensativa. – Eu tinha uma tartaruga também, mas ela morreu porque bebeu água sanitária.

- Você deu …




Estações

3.novembro.2013

Das linhas que escrevi

Apaguei-as

E o suor que banha minha testa

Vem do verão

 

Naquele outono, de histórias pra contar,

Me cobri de sonho

E me encharquei de riso

Quando me aliviava em choro

 

Há um capim alto lá fora

Pontilhado de pequeninas flores murchas

Espalhadas, vão por aí

Voam ao vento,

Desde que o outono se foi

 

E o inverno inundou de gelo

As noites em que os galhos farfalhavam

E o barulho do medo passava pelo jardim

 

E a primavera chegou

Em algum canto do mundo

Há um jardim em flor

Uma fanfarra de cores e cheiros

 

Hoje, sou uma bolha na atmosfera

Em qualquer estação

Frestas de poesia em vão…

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Valéria Lopes é pós-graduada em Docência Superior, graduada em Letras (Português/Literatura). Formada em Inglês. “Às vezes, ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.” (Fernando Pessoa)

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Os perigos desta vida

1.novembro.2013

Há uma linda música de Toquinho e Vinícius, com este alerta importante: são demais os perigos desta vida pra quem tem paixão. Mesmo sem paixão, o perigo existe.

Um perigo terrível, aquela lata de sardinha ou de atum, que vem com a argolinha presa na tampa, para que seja alavancada. Se você não for um Arquimedes e errar o ponto de apoio, a latinha vira de lado e o corte no dedo é fatal.

Lâminas da maquininha-sensação que rala, tritura, pica, corta, exigem cuidado extremo, pois esse diabo a quatro pode ser o próprio demo.

Ai, os pisos de cerâmica molhados. Tornam-se ainda mais assassinos com sabão e espuma. Lisos, pérfidos, traiçoeiros. Temos de andar sobre eles com as “legítimas”, ou nos esborracharemos com a cara no chão.

Alerta vermelho: depois de certa idade, pegar um objeto no chão, curvando a coluna. Ah, leitor, mesmo que você não tenha chegado à idade provecta, cuidado. Pode ocorrer a tal “mordida no nervo”, que o levará a dar entrada no hospital vomitando e uivando de dor.

E quando vemos, pelo retrovisor do carro, duas motos vindo atrás de nós? Em geral, fico no meio, colaborando com a ultrapassagem. Enfim, são centímetros que …




Enrolando a língua

1.novembro.2013

Talvez a ideia tenha nascido pelo fato de praticar de uma arte marcial japonesa, talvez pelo fato de ter morado quase a vida toda em cidades nas quais a comunidade japonesa sempre foi abundante e, por isso, não apenas ter convivido com muitos japoneses e descendentes, mas com sua cultura, mas, seja pelo que for, inventei de aprender japonês.

Assim, matriculei-me em uma aula semanal de uma e meia com uma professora nativa. Ajudou o fato de a professora ser ótima e da turma ser diminuta, mas eu tenho me sentido, a par disso, na pré-escola. Já nas primeiras aulas fui apresentada ao alfabeto. Não apenas para conhecer, mas para aprender a escrever.

Caderno de caligrafia na mão e um nó no cérebro, lá fui eu. Acho que nem meus primeiros rabiscos de infância foram tão vacilantes. Começa que a coisa toda se dá de trás para frente, o que por si só subverteu uma ordem já arraigada no meu subconsciente e me deixou vacilante por um bom tempo. Além disso, a ordem das letras não é a, e, i, o, u, mas a, i, u, e, o. Pensa agora se meu pobre cérebro não começou a entrar em parafuso……





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