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Da minha primeira vez, não tenho boas lembranças. Um jorro de água fria na paixão que durara semanas, um mês, quem sabe, até a última fala, dita com a frieza de estrangulador da ave que se destina ao banquete. “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
Com essa frase fecha-se Memórias Póstumas de Brás Cubas, a verdade derradeira paradoxalmente concebida como legado humanitário deixado pelo protagonista. Após seu próprio enterro, o defunto, que dá nome à obra, se debruça em análises sobre o sentido, e a falta dele, em seus sessenta e quatro anos de vida. Morreu em consequência da pneumonia contraída por um ataque de vento encanado ao abrir a janela para refrescar as ideias fustigadas pela angústia da procura de alívio para a melancolia da humanidade. O que o autor define como ‘morrer de uma ideia grandiosa’.
Publicado em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado o marco do realismo na Literatura Brasileira, ao lado de O Mulato, de Aluísio de Azevedo. Uma obra atemporal, a ser lida a cada tanto. E, a cada leitura, a poética de Machado de Assis nos inocula de forma distinta. Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), cronista, contista,




Natal de Luz

30.dezembro.2013

Segundo meus pais, logo que eu aprendi a falar, e quem me conhece pode imaginar que foi logo, no meu primeiro Natal eu já pedia para ir ver as “boinhas”. No caso, eu estava encantada com as bolinhas e luzes de Natal e, de fato, de lá para cá continuei sendo uma amante da decoração Natalina.

Na minha casa, a decoração de Natal é colocada logo após o Dia de Finados. Eu mesma me encarreguei de fazer uma parte dela, mas o que mais me chama a atenção são os enfeites luminosos e coloridos. Agora, na proximidade de mais um Natal, o quadragésimo da minha vida, começo a refletir a razão pela qual gosto das luzes e das “boinhas” até hoje…

De início é claro que isso se dá por um aspecto nostálgico, de lembrança dos Natais que passei com meus pais e avós, da crença doce na existência do Papai Noel e da ansiedade para encontrar os presentes embaixo da árvore. Tenho, ainda, muitas lembranças de Natais ao lado de tios, primos e agregados à família, todos juntos no preparo dos quitutes que comeríamos na ceia. Tudo muito simples, mas em abundância e com alegria. Assim, nem poderia ser …




Maria Balé

Querido João,

Já é quase final de ano. Pela primeira vez, você e eu não estaremos juntos na virada, tapando as orelhas na hora dos rojões, olhando o céu riscado de fogos, enchendo a pança de maionese, farofa, arroz com uva passa. Este ano, como acontece a muitas das crianças quando os pais tomam caminhos diferentes na vida, você passou o Natal comigo e, nada mais justo, no réveillon vai estar com a mamãe.

Então, como eu sei que a saudade vai bater violenta quando der meia-noite e você não vai estar por perto para me mostrar bagunceiro os quatro zeros no relógio do celular, eu resolvi escrever esta cartinha a você. Porque assim, desde já, é como se você estivesse aqui pulando, derrubando a casa, irritando a vizinha infeliz do andar de baixo, fazendo todas aquelas perguntas que eu nem imagino de onde surgem. E eu tentasse respondê-las enquanto a gente luta contra o sono e sente o maior dó dos cachorros torturados pela barulheira dos fogos. Cada um tem um jeito de lidar com as coisas da vida, meu filho. O meu é este. Batucando para fora o que passa aqui dentro.

Aliás, escrever-lhe esta cartinha ganhou um




O sentido da vida

22.dezembro.2013

Desejo que você, leitor, encontre o sentido da vida. E me conte onde o achou. Que me mande um e-mail relatando como foi sensacional tê-lo, finalmente, descoberto. Como ele é, o sentido. Se ele é alto ou baixo, gordo ou magro, sisudo ou simpático. Se aparenta ser acolhedor, com respostas na ponta da língua e se está disposto a nos suportar.

Desejo que o leitor me ensine a escrever o que deseja ler aqui, neste dia cheio de esperanças. Sim, meu coração transborda de amor, de generosidade e bondade quando escrevo. Sou tomada por uma beatitude e pareço alcançar um estado de graça que, imagino, transpareça nas palavras.

As palavras. São elas as responsáveis por tudo. São as culpadas de todas as coisas, as orais, as pensadas e as impressas. São elas as donas de toda história.

O que seria de nós sem as palavras? O que seria da vida sem o seu alfabeto digno? Sim, a vida nasceu de um caldo nutritivo e subiu para a terra. Evolução das espécies, sobrevivência dos mais fortes, biologicamente. Oh, há quem afirme que a vida nasceu das palavras. Ou dos números.

Este é o sentido da vida: o que falamos, o que …




Amizades

21.dezembro.2013

Já diz a letra da música “que amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”. Com o passar do tempo, embora goste da música, concluí que amigo está mais é  planta pra se cuidar. Até a água deve ser na medida certa. Demais ou de menos pode colocar tudo a perder.

Sempre gostei de ter muitos amigos, de conhecer bastante gente. Depois descobri que na verdade nem todo mundo pode ser classificado de amigo e que de muita gente já é  suficiente ser colega. Aprendi também que amigos não são para frente, mas que podem ser infinitos enquanto durem, porque amizade também é amor, e se engana quem achar que uma espécie de amor menos exigente.

Como acontece com muitos relacionamentos, amigos, não raras vezes, “pisam na bola”. Uma hora somos nós que fazemos isso; outra hora somos as vítimas. Grande parte disso acontece sem que ninguém se dê conta, mas pode causar estragos eternos, irreparáveis.

A gente pensa que os amigos deveriam relevar nossos erros, mas aprendi que às vezes é o contrário. Como as expectativas mútuas são elevadas, é mais fácil se decepcionar e já se diz por aí que a intimidade pode ser um …




Insolitez

19.dezembro.2013

Não sou afeita a comemorar aniversários. O meu, então, nunca coincide com o calendário dos meus nascimentos. São anônimos os dias em que algo de eterno eclode em mim.

Das lembranças que tenho dos meus tempos de criança, os sentimentos de aniversariante eram contraditórios. Ambicionava as conquistas da mudança de dígito, é certo. No entanto, não achava graça alguma em ficar mais velha. Hoje, acho menos ainda.Não raro, me esqueço da data querida de pessoas que me são caras. Puta gafe, eu sei. Algumas tomam esta pseudo-displicência como desconsideração. E lá vou eu, me desdobrando em desculpas e cumprimentos atrasados para não contundir a amizade.É insólito, imponderável talvez, porém, quando alguém dos meus vínculos afetivos morre, esse dia fica escarlate na minha memória e me lembro já de véspera. Não me refiro às mortes nossas de cada dia, das quais ressuscitamos, arremedando aos mitos. Reporto à finitude da massa orgânica da qual somos compostos. E decompostos, por suposto.
Falar da morte, o mais cultuado dos tabus na cultura ocidental, é incômodo, também sei. Contudo, uma vez que se nasce, é inegociável, se morre. Não há outro jeito.O dia do nascimento é um dado, uma informação. Só sei porque me contaram.




Se…

12.dezembro.2013

Se é pra esquentar, esquente o pé.

Se é pra roubar, roube a cena.

Se é pra perder, que seja o medo, a barriga, a hora.

Se é pra cair, caia na risada.

Se é pra brigar, que seja com o sono.

Se é pra desafiar, desafie o improvável; perdoe uma traição.

Se é pra aceitar, aceite o imutável, o inexorável.

Se é pra insultar, insulte a balança.

 

Se é pra espantar, espante-se: cortesia não fere valentia.

 

Se é pra lavar, lave a mão, a louça, lave a alma.

Se é pra chorar, chore o leite derramado, chore de rir, chore de chorar mesmo.

Se é pra contar, conte logo, conte um conto.

Se é pra esconder, esconda a idade.

Se é pra mudar, mude de assunto, mude de casa, pra uma rua com mais árvores.

Se é pra jogar, jogue o lixo no lixo, jogue as mágoas. Jogue limpo.

 

Se é pra procurar, procure onde acha.

Se é pra crer, creia que sim.

Se é pra dar, dê a largada, uma festa.

Se é pra rir de alguém, ria de você mesmo. Se é pra rir pra alguém, ria pra todo mundo.

Se é pra pagar, pague o




Na Igreja

12.dezembro.2013

Entro na igreja

E me sento

Todos estão mudos

Meu coração, não

Transborda como pode

Libera as lágrimas

Que descem à toa

Sempre que me deparo comigo

Assim como o riso

 

E me encanto

Com a arquitetura

Minuciosos detalhes

A luz do vitral

Em reflexo do sol

Colore os bancos escuros

Na tarde fria e clara

 

Minhas mãos escondidas em luvas

Cruzam os dedos

Sustentam meu peso

E penso nas mãos

Nos calos das mãos que talharam as paredes

Das cenas sagradas, vestidas de beleza sublime

E vejo Jesus, à minha frente, no alto

De mãos e pés na cruz

Da visível dor

 

E me lembro de que Menino

Ficou no templo

E sumiu dos pais

Eu ficaria nessa igreja hoje

Durante muito tempo

Sentada no banco escuro

Sob os raios de sol na tarde fria

E silenciaria

Como Ele

O que já me silencio há tempos

Ficaria, sim

 

E choro agora, como chorei quando nem ainda amanhecia

Sentada no banco da igreja em obras

O suor desponta na testa

Pelos olhos, pela face

Mesmo nevando lá fora

 

Eu me emociono em igrejas

Com os acordes do sino, ao longe

Não precisa de homem no …




Se eu pudesse…

12.dezembro.2013

O que é que muitos de nós faríamos, se nos fosse dada a chance de viver de novo a nossa vida? Parece fazer mais sentido perguntar a quem já viveu, pelo menos, meio século. Do alto de 50 respeitáveis anos, é permitido olhar para trás e cofiar o queixo. Passar a mão no cabelo. Tirar uma lasca de unha. Suspirar. Deixar correr uma lágrima.

Mas para um jovem que deu um mergulho num lago, bateu a cabeça numa pedra e ficou tetraplégico, a pergunta também caberia. Se ele pudesse viver novamente a sua vida, naquele momento do salto, ele não teria pulado, sem antes indagar a alguém da vizinhança se haveria pedras no fundo.

Quando se é jovem, não se faz esta pergunta a ninguém: há pedras no fundo deste lago, moço? O corpo quer mais é viver a aventura da água e da graça. Diante da tragédia que prostrou o corpo, qualquer suposição posterior lacera a carne e a alma. Ah, se eu pudesse voltar atrás!… Se eu pudesse!…

Contudo, chega-se a um ponto onde resta-nos olhar pelo retrovisor da vida e o que está feito, está feito. Para uns, há glórias sobre glórias; para outros, dores, perdas, lutas, …




Nota explicativa

2.dezembro.2013

Recebi um e-mail lindo perguntando que apito eu toco. A-do-ro! Acho que é por causa da mistura de temas.  Que apito, essa é boa. Eu toco o meu apito.

Devo tocar uns apitos que incomodam. Por que haveria de tocar um só? Já pensou? Aquele apitinho monótono, aquela flautinha canhestra, um monocórdio chato, um diapasão repetitivo?

Estou fazendo umas ligações nada clandestinas para concluir que devo ser uma índia aqui de Piracicaba, nome que, em bom tupi-guarani, quer dizer “lugar onde o peixe para”. Desculpe se for só tupi. Ou só guarani.

Enfim, o nome Piracicaba é de origem indígena. Lugar onde o peixe para.  Esse “para”, em sua forma verbal, perdeu o acento agudo na reforma ortográfica. Pois deveria continuar acentuado, diferenciando-se do “para” preposição. Esses gramáticos e filólogos e suas reformas!… Talvez nem entendam de rio, de peixes e onde eles param. Rubem Alves já disse que “o mundo dos escritores não é o mundo dos gramáticos”.

Penso que tocar vários apitos requer até alguma habilidade. Olha, que modesta. Nunca tomei aulas. Já devo ter nascido com esta predisposição para ousar. Ou para apitar. Adolescente, eu levava um apito no estádio para assistir aos jogos de basquete do …





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