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Dormir e sonhar

27.fevereiro.2014

Uma das coisas que gosto de fazer é dormir. Não que eu seja daquelas pessoas que dormem muito, mas aprecio o bom sono. Desde pequena tenho minhas preferências. Nunca foi adepta de dormir cedo e, sobretudo, de acordar muito cedo. Deixo esse hábito para maior parte dos pássaros e para aqueles que gostam de ver nascer o sol.

Antes que alguém me crucifique, também considero um maravilhoso espetáculo o momento em que o sol vai surgindo, como se nascido da terra e não do céu, e começa  tingir o tempo com cores infinitas. Só que, a par disso, eu não consigo me sentir muito disposta fisicamente nesse horário. Se o sol nascesse às 8 da manhã, eu estaria sempre a postos, mas, como astro que é, tem as suas manias também…

Sempre gostei de ir dormir depois que todos já haviam se deitado, depois que a casa estava silenciosa. Em verdade, eu não ia exatamente dormir, mas ler e escrever. Sempre foi esse igualmente meu horário preferido para estudar, pois gosto da sensação de que o tempo fica pensativo e quase tudo ao meu redor se torna silêncio, até para permitir que ideias brinquem livres e barulhentas pela minha cabeça, …




Domingão Ray Conniff

24.fevereiro.2014

Ah, meu Deus do céu, tive um pequeno “domingão Ray Conniff” sozinha aqui em casa. Imagino o que seria ter um “domingão Ray Conniff” daqueles, ampliando-o ao máximo! Reunir todos os amigos, todos os lindos dos meus grupos eletrônicos, os leitores queridos, daqui, de outros estados e até de outros países também. Ter a graça de reunir as “pessoas-cabeça” fascinantes que conheço. Os antenados e inteligentes. Os sensíveis e os habitantes do nível metafísico. E, sobretudo, os poetas.

Há algum tempo, minha filha mais nova me presenteou com um CD tipo MP3 com 205 músicas da orquestra do Ray Conniff. Já ouvi trezentas mil vezes e em cada vez, chorei, chorei, chorei. É arrebatador ouvir esta orquestra colossal, tocando aquelas músicas que, um dia, todos nós dançamos, abraçadinhos, apaixonados, alucinados, com a alma pegando fogo, sonhando com alguma coisa que ninguém jamais pôde decifrar.

Está lá, no fundo do coração de quem já dançou ao som das músicas de Ray Conniff, com aquele arranjo inconfundível de “Besame mucho”. Eu tenho de me beliscar para ter certeza de que esse tempo existiu e eu vivi nele.

Tudo isso me faz lembrar dos anos 60. Ninguém jamais poderá definir o encanto de …




Em excesso, até água mata…

21.fevereiro.2014

Na falta de título melhor para esse texto, foi essa a frase que me veio à mente. Lembrei-me de que um de meus últimos textos apelava para que São Pedro nos enviasse um pouco de abençoada chuva, para o bem das plantas, dos bichos e dos seres humanos. Por precaução, inclusive, antecipei-me no sentido de que ninguém me viesse culpar caso a água despencasse meio louca lá do céu, pois, pelo que tenho visto, ultimamente é tudo ou nada.

Pois bem, andei de fato procurando um índio para executar a dança da chuva, mas juro que não achei e que a chuva que abalou a cidade de São Paulo no final dessa semana em nada me é devida. Até faria bem pensar que disponho de algum canal direto com o dono do tempo, mas isso, no máximo, seria um “gato”… Por outro lado, a essa altura, eu estaria sendo massacrada por muitas pessoas, inclusive por mim mesma.

De fato, solicitei os valiosos préstimos celestes no sentido de que a chuva viesse mansa, paulatina e que fosse capaz de amenizar o calor excessivo que estava consumindo as forças de todos. Quando o tempo começou a ficar mais escuro ontem, quando as …




Versos e reversos do amor

16.fevereiro.2014

Confesso que até tento evitar, mas costumo prestar atenção nas pessoas, no que elas fazem e falam, essencialmente quando não estão se dando conta disso. Enquanto algumas pessoas observam pássaros, eu observo pessoas. Sem isso, sem essa espécie de curiosidade que me é nata, talvez fosse difícil escrever sobre a vida, sobre sentimentos, sobre as relações humanas.

Assim, embora eu busque não ultrapassar a barreira do alheio, do indiscreto, há situações nas quais as pessoas se expõem de tal maneira que é impossível não ouvir o que dizem ou mesmo não me aperceber do que demonstram sentir. Se as pessoas pudessem se dar conta dos infinitos sentimentos que transbordam de seus olhos, de suas palavras, de seus gestos, muitos se dariam conta de estarem andando por aí com a alma e coração desnudados, à flor e ao fruto da pele.

Esses dias mesmo, enquanto eu aguardava em um laboratório para fazer um exame de rotina, notei um casal e seus dois filhos que estavam sentados nas cadeiras imediatamente a minha frente. Ele era aparentava ser mais velho do que ela, mas, além disso, tinham estereótipos bem distintos. Enquanto ela mantinha seus longos cabelos presos, bem ao estilo que muitas mulheres …




Digno tempo

16.fevereiro.2014

Digno tempo

Com o calor tórrido destes dias, surge uma febre terçã, de quando nos sentimos pequeninos demais diante da vida. Elevo os olhos para o vasto céu e vasculho o infinito. Na grandeza astral, professo o apagamento, a pobreza no espírito, a solidão mil vezes abraçada. O silêncio é a minha religião.

Componho a liturgia de todas as coisas, elaborando um calendário em que as esperanças acenam promissoras, prenunciando alvíssaras.

Fazer o que, neste verão de céu azul? O que me salva? Salva-me saber que ontem, menina, busquei o tempo. Além dos vestidos de algodão e da bolsa da escola. O lanche, o abraço da professora, o primeiro medo, a primeira conta. Pela frente, uma vida inteira, a mulher adulta, os cheques por assinar toda a dívida de estar vivendo.

O corpo cresceu e digo que não cabe mais na saudade. Este digno tempo me reporta ao derramamento da poesia em todas as suas instâncias. Quando é madrugada nos meus cabelos ou quando brilha no meu peito a última estrela. A música noturna é um canto marinho de vozes longínquas. Fragor de batalhas, lutas heroicas, velas ao vento e longitudes.

Sofro desta saudade talassêmica, de uma tristeza endêmica, doença …




Coisas que desaparecerão?

9.fevereiro.2014

Circula na internet um texto referindo-se a “nove coisas que desaparecerão” em pouco tempo. É de tremer.

Em primeiro lugar, é apontado o correio. Os correios começam a passar por problemas financeiros e as novas tecnologias, incluindo o próprio e-mail, ameaçam desintegrar esta tradicional organização. Ah, que figura romântica a do carteiro! E pensar que, um dia, ele existiu.

A seguir, o cheque. O cheque vai desaparecer. Já vemos que o cartão de plástico substitui o dinheiro em espécie e o cheque. E ganhou credibilidade.

O jornal. Acredita-se que o jornal terá o mesmo fim que o leiteiro e o tintureiro. A geração mais nova não lê jornal e prefere dar uma olhada nos noticiários on-line. De minha parte, penso que nada substitui o prazer de tocar nas páginas de um jornal impresso. Não consigo ler um texto no monitor por muito tempo, fico com a vista muito cansada.

Claro, depois do jornal, vem o livro. Pressinto que jamais irei desistir do livro físico, a leitura prazerosa, virando página por página. Mas os futurólogos afirmam que se poderá navegar numa livraria on-line, ler um capítulo de uma obra antes de comprá-la e o preço sairá pela metade de um livro …




De mãos dadas

9.fevereiro.2014

Considero o ato de dar as mãos como um dos mais simbólicos e belos. Refiro-me não ao apertar de mãos, aquele que faz parte de um cumprimento, mas ao de se dar as mãos. Mesmo as imagens de mãos dadas me trazem os melhores sentimentos. Creio não ser à toa que ilustram várias telas, em todas as partes do mundo.

Ainda que na verdade se trate de um reflexo, mas até mesmo as criancinhas recém- nascidas seguram o dedos alheios com tamanha força, que chega a ser comovente. É como se dissessem que há vínculos já formados, vindos do coração, viajando por seus delicados bracinhos.

Conduzir uma criança, sobretudo as menores, pelas mãos, é um momento único. Colocam em quem as conduz, toda a sua singela e frágil vida. É uma confiança que poucas vezes faz morada nos adultos. As mãozinhas, pequeninhas, macias, parecem-me ramificações de uma plantinha que há pouco deixou de ser semente.

Andar de mãos dadas é um gesto de amor igualmente entre namorados. Requer uma intimidade que extrapola à física. Casais que não se amam dificilmente andam de mãos dadas. Quando as mãos se encontram para atravessar uma rua, para passear por um parque, para fazer …




O feijão

9.fevereiro.2014

Amanhece.

O quarto gelado.

O corredor, a escada, a sala, a varanda, tudo quente.

Olho o termômetro: 32 graus.

Ah, tá! Deve estar mais de 40. A tal sensação térmica, aff!

Ligo a borracha e deixo a água lavar o que está sujo. E me lembro de um verso de uma música que minha mãe sempre canta: “a água só não lava a língua dessa gente”. Mexo nas plantas, limpo os bichinhos do jardim, esfrego o chão da piscina. Passo o rodo. Arrumo a casa, borrifo uma essência de perfume bom. Tudo brilha no seu lugar.

Enquanto eu…

A água forte da bica do tanque enxágua as roupas que deixei de molho no sabão em pó líquido. É cheiroso e não estraga tanto as mãos – as unhas. Tão fracas minhas unhas!

Como será até a noite? Tsc.

Vou fazer o almoço. Mari pediu suflê, feijão, arroz, batata no forno com azeite e cebola, farofa, frango assado e salada.

Filipe não come carne vermelha.

A Nanda prefere bife.

Preciso me inspirar para fazer direito. Não sou boa na cozinha. Não sei mexer em panela de pressão. Ai, meu Deus, meu feijão é horrível. O da Fernanda Cristina é uma delícia. …




Procura-se um índio

9.fevereiro.2014

E o calor está de rachar! Como se diz, está de rachar a moringa, a cabeça, rachar o pote! Não sei se dá para fritar um ovo no asfalto, mas que dá para fritar o couro, isso dá. Tão quente que não se consegue dormir direito sem um bom ar-condicionado ou, ao menos, um potente ventilador.

Eu andei escrevendo, tempos desses, que estava com saudades do verão. Sou obrigada a me redimir e pedir perdão aos meus leitores se, porventura, eu possa ter colaborado com as decisões superiores, naquele já meu esquecido clamor. Deixo claro, contudo: estava com saudades de um calor razoável, um calor que não cozinhe os miolos, as ideias, que não evapore até as lágrimas furtivas.

Concordo que São Pedro já deva até estar exausto dessa bipolaridade humana, mas também, custava ser razoável? Acho que há tempos não procedem a ajustes nos botões que regulam o calor, o frio, a chuva, a seca. Porque ou não cai nada ou despenca, ou congela ou frita. Assim fica difícil contentar os eleitores. Bastava a aplicação do princípio da razoabilidade, sabe? Moderação, Pedro, moderação…

O fato é que não apenas está muito quente como não tem chovido há algum tempo …




Novamente

3.fevereiro.2014

Não aprendi com nenhuma lição de vida,

com nenhum professor,

em nenhum livro,

de romance algum,

em nenhum verso,

de poesia, em vão

em nenhuma canção,

de ritmo qualquer

Em nenhum lugar,

até hoje, não aprendi,

como se faz,

qual é o jeito,

o rumo,

para encontrar o que perdi de mim

 

Se tudo estivesse bem marcado e demarcado

Era só descosturar, desamarrar, destampar…

Abrir os olhos,

Levantar,

Olhar para frente

E seguir

Sem olhar para trás

Mas me foge

Não chego, não alcanço

E, se tento sair do lugar,

Tropeço,

Caio

E desmaio em sonho,

em voos longos,

em luas nunca mais vistas,

em céus de estrelas de vários tamanhos

Tsc

E me perco,

No primeiro amanhecer

Dá preguiça,

No entardecer

E anoiteço perdida de mim.

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Valéria Lopes é pós-graduada em Docência Superior, graduada em Letras (Português/Literatura). Formada em Inglês. “Às vezes, ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.” (Fernando Pessoa)





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